7 de junho de 2012
Que milagre é esse?
Quando nós pais recebemos um diagnóstico definitivo do problema
neurológico que atinge nosso filho, confirmando aquilo que no fundo já
suspeitávamos, é algo muito impactante, ninguém está preparado para um momento
como este. É difícil demais, doloroso demais. A realidade passa a ter nome e
sobrenome e é no mínimo assustadora.
Neste primeiro momento somos tomados por toda sorte de sentimentos
negativos: revolta, raiva, depressão, medo, culpa, insegurança... Custa a crer
que seja verdade, mas é. Atingir esta consciência pode variar no tempo, mas
todos chegamos a ela.
Entramos então em uma segunda fase, não menos perigosa, de
arregaçar as mangas em busca do tão sonhado milagre, somos como traças a
“comer” toda e qualquer fonte de conhecimento sobre o assunto, livros, estudos,
artigos, Internet. Nos tornamos verdadeiros “doutores” no assunto. Chegamos a
achar que sabemos mais que os médicos. Desconfiamos de quase tudo e queremos
discutir de igual para igual.
É claro que o tempo e a intensidade desses momentos variam de
pessoa para pessoa, mas em regra sofremos com a realidade e sonhamos com
um milagre.
E foi em busca dele, que assisti uma vez, em um seminário
sobre Autismo e Asperger, o depoimento de um pai que abandonou sua profissão
para voltar aos bancos da faculdade e freqüentar um curso na área de
biomedicina, mudando totalmente sua vida e o seu perfil profissional porque ele
não aceitava que a ciência médica, tão avançada, não tinha uma solução para o
problema de seu filho e, se era assim, ele mesmo a encontraria.
Parece extremo e é, mas quem de nós não iria atrás daquele
“pássaro azul no alto de uma montanha dourada nos confins da Terra” se isso
salvasse o seu filho? Eu, com certeza, iria.
Acontece que com o passar do tempo nós também descobrimos que este
tipo de milagre não existe. Não há pílula dourada ou varinha de condão. O
milagre não esta relacionado à cura e sim a melhora evolutiva, às vezes
imperceptível aos olhos da “normalidade”, mas que para nós e nossos filhos é
como vencer o invencível.
Estas vitórias só vêm com muito esforço, trabalho, disciplina e
entrega fruto do amor incondicional da qual só nós, os pais, é que somos
detentores. Não espere que terceiros, por mais qualificados e dedicados que
sejam, venham a suprir um lugar e um poder que é exclusivamente seu. É dele que
seu filho se alimenta para evoluir.
Quando se trata do dia a dia, dos sentimentos, humores,
percepções, o olhar treinado é o nosso, forjado no cotidiano. É nele que os
médicos e terapeutas se baseiam para sustentar suas orientações.
Em quase toda consulta que fazemos ao neurologista costumamos
renovar a esperança do milagre imediato e assim esquecemos que ele está diante
de nossos olhos: basta comparar a evolução o ganho de desenvolvimento que já
foi alcançado.
É, primordialmente, nesta disciplina e entrega irrestrita, só
oferecida pelos pais, que o verdadeiro milagre diário acontece.
Às vezes é preciso que alguém nos diga isso claramente. É como
levar um soco no estomago. Dói, paralisa, mas nos dá a consciência de que para
seguir em frente é preciso deixar de almejar o “miraculoso, o ilusório, o
imediatista” e passar a festejar essa evolução constante, verdadeira, e não
menos brilhante e preciosa.
Fonte: http://www.carlagikovate.com.br/index_arquivos/Page1663.htm

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